Arte na Fotografia.

Arte Na Fotografia é uma competição de fotografia produzida e exibida pelo canal brasileiro Arte1. Seis fotógrafos foram selecionados para participar, sendo desafiados em diversos ambientes e limitações, com o intuito de mostrar um olhar autoral em ensaios de seis fotos. Participei da segunda temporada do programa, em 2018, onde fui escolhida a vencedora. Aqui estão os ensaios resultantes de alguns dos desafios, juntamente com minhas reflexões sobre cada um.

Sonho infantil.

Chegamos num circo. Fazia um bom tempo que não pisava nesse ambiente e essa vez seria bem diferente das outras. Nossa missão era fotografar o circo através dos olhos da nossa criança. No início fiquei um pouco tensa, mas logo relaxei e fui me deixando levar. Onde eu gostaria de estar, se eu fosse uma criança e tivesse livre acesso a todos os espaços de um circo? Curiosa que sou - e sempre fui -, queria saber os segredos daquela mágica. O que acontece por trás das cortinas do picadeiro? Como os artistas se preparam e se concentram? Como vivem quando não estão cuspindo fogo, dando piruetas em trapézios, se equilibrando ou provocando gargalhadas no público? Isso é o que minha criança gostaria de ver. Fiquei o tempo inteiro nos bastidores. Conheci trailers onde os artistas residem e vários dos camarins. Conheci uma família de trapezistas. Foi incrível ver cada pessoa em processo de transformação até virar um personagem daquele espetáculo que eu praticamente nem assisti, porque o espetáculo mais legal, pra mim, era aquele ali. Estava tranquila e me diverti fotografando. Tava até com saudades dessa sensação.

Descartados.

Nunca me achei uma fotógrafa criativa. Sempre fui mais de observar e registrar o que já estava ali. Durante uma época, até senti falta de algo assim no meu trabalho em casamentos e comecei a me forçar fazer uns retratos criativos, depois abandonei de novo. “Sou fotógrafa documental”, pensava, “faço fotos encontradas, não inventadas”. Entrei nesse programa e meu mundo caiu. Entrei justamente porque queria que ele caísse mesmo, tava precisando disso. Essa foi a primeira vez que criei algo assim, do nada. Cheguei meio perdida no desafio do ferro-velho, como sempre, mas conversei com o mentor Claudio Feijó e ele me acendeu uma luz. Resolvi mesclar a contadora de histórias que eu era com a fotógrafa criativa e conceitual que nunca fui. Pensei que a maior parte das peças que estavam ali podiam ser provenientes de acidentes de carros. A partir de uma quantidade sem fim de peças empoeiradas, em 3 horas criei 6 telas com o intuito de contar uma história trágica que pudesse servir de alerta a essa infeliz estatística ainda tão alta em nosso país. Fiquei bem feliz com o resultado. Parece que tá começando a virar uma chavinha aqui dentro.

Desafio concreto.

Desafio de arquitetura num cemitério em fotos preto e branco. Parece complicado, mas estou começando a ficar cada vez mais tranquila durante as provas. Dessa vez tive um pouco de tempo pra pensar o que gostaria de fazer e consegui cheguar no meu conceito antes de o tempo da prova começar. Tempo é mesmo uma moeda preciosa nesse programa. O Cemitério da Consolação tem umas tumbas majestosas, maiores que minha casa. Nossa, elas parecem casas mesmo. Algumas se assemelham até a edifícios e castelos. Decidi tentar representar a Necropolis, a cidade dos mortos. Lembrei que meu pai me falou disso, uma vez. Quero fazer esse cemitério parecer com uma cidade, uma vila de casas, igreja. Manoel de Barros sempre tá comigo. Lembro de seus ensinamentos poéticos sobre ressignificar as coisas, como uma criança que tem a liberdade de brincar e mudar a função de algo que já está cansado de ser uma coisa só. Porque um cemitério tem que ser sempre um cemitério? O dia começou nublado, mas logo saiu um solzão que me ajudou muito. Gosto mesmo é de um preto e branco com força, com contraste. Comecei a usar luz e sombras a meu favor, escondendo os elementos (como as cruzes) que caracterizavam aquele lugar como um cemitério e deixando a luz para iluminar as casas. Lembrei das conversas que tive há mais de 10 anos com meu irmão, arquiteto, sobre fotografia arquitetônica, e busquei representar essas construções com linhas e perspectivas bem retinhas. Na hora da edição, o colega de competição Fred Gustavos me ajudou a colocar as fotos em ordem, de forma que parecesse uma paisagem linear única. A gente nunca tá sozinho nessa vida. Obrigada, pai, Obrigada, Manoel. Obrigada, Márcio. Obrigada, Fred.

Humanos e animais.

Sou vegetariana há 9 anos e vegana há 1 ano (em 2018). Quando soube que esse desafio seria sobre a relação dos humanos com os animais, logo entrei em estado de alerta. Tomara que não seja um zoológico, um açougue ou um abatedouro. Não era. Ufa! Era um jóquei clube. Ufa? Não sei o que pensar sobre isso. E agora? Como os cavalos são tratados? Será que eles gostariam de estar ali, caso tivessem essa escolha? Bom, não posso responder essas perguntas, mas posso falar o que eu penso e sinto através de fotos. Sinto que esse é meu papel no mundo. E se eu conseguir mostrar que não há tanta diferença assim entre o animal humano e o animal bicho? Aproveitei o pouco tempo que tínhamos com os cavalos nas baias, onde podíamos ficar bem próximos a eles, e comecei a observar. Jogando com luz, sombra, cortes extremos e desfoques, achei uma foto. Nela, enxerguei o torso de um homem musculoso. Quando tirei o foco e sumiram as informações de pelos do cavalo, já não se identificava facilmente que se tratava de um animal peludo. Curioso. Isso também segue o mesmo princípio que usei nos dois últimos desafios, sobre ressignificar as coisas. Resolvi seguir em busca dessa ideia. Foram 3 horas de busca e mais de 1300 fotos, com edição e tratamento minucioso para chegar nas 6 imagens que, até agora, mais me surpreendi em ter conseguido fazer. Nunca pensei que pudesse criar esse tipo de fotografia. Será? Lembrei que, há uns 10 anos, bem no início da fotografia na minha vida, anotei uma ideia muito parecida com essa, em uma linha, pra fazer um projeto pessoal que nunca saiu daquele caderno. Nada é por acaso mesmo.

Cidade do futuro.

Como você imagina que seria a cidade no futuro? Agora temos que fotografar algo que não existe no mundo real, mas apenas no mundo da fabulação, nos nossos sonhos e pesadelos mais profundos. Como eu imagino a cidade no futuro? Será que vai ser tão diferente do que é hoje? São Paulo, por exemplo, já nem tem tanto espaço pra crescer. Acho que não vai mudar muito mesmo. Nessa hora eu penso o quanto a humanidade está mudando. Estamos cada vez mais doentes. Surgem 15 novas farmácias em cada esquina. Li em algum lugar, recentemente, que a incidência de miopia vem aumentando nos últimos 100 anos. Passamos a maior parte dos nossos dias com os olhos frente a telas luminosas. Não é possível que isso não cause algum efeito maléfico à nossa visão. Me desculpem os oftalmologistas, se eu estiver errada, mas esse foi meu pensamento. Vivendo há mais de 10 anos a fotografia, não apenas como uma profissão, mas como um estilo de vida e como forma de me entender no mundo, evoluir, e contribuir, o meu maior medo é perder a visão. Decidi, então, pensar ao contrário do óbvio (Manoel de Barros sempre presente), assumir esse medo e fotografar algumas paisagens de São Paulo como se o espectador sofresse de problemas de visão variados. Na primeira parada, ainda bastante nervosa, fiz logo vários testes das diversas técnicas que iria utilizar. Na segunda parada, cheguei ao apartamento da minha prima Laura. Nessas horas, a presença da família pode contribuir muito no emocional e essa paradinha foi essencial para que eu relaxasse e começasse a curtir o desafio. Catei um pote de vidro na cozinha dela e segui minha busca para unir paisagens e técnicas diferentes, algumas vezes usando o pote para dar alguns efeitos desejados. Na hora da finalização, decidi tratar as imagens me inspirando levemente na cegueira branca de Saramago e acho que funcionou bem. Missão cumprida. Esse ensaio me levou para a final e posterior vitória da segunda temporada do Arte Na Fotografia.